Na calada da noite ele surge, me persegue pelos cômodos e sem rodopios faz questão de por na mesa tudo aquilo que escondo, que temo e fujo.
Envolvido em pensamentos. Sobre o travesseiro tento escapar, mas eis que de manso surge o nada. Não existe algo que mais incomode do que nada, nenhum fiapo preocupação, amargo de desavença. Até mesmo a dor de um amor se perde na escuridão do quarto, hora oportuna para o acalanto, a mansidão, o sereno e tão temido silêncio do coração.
Na Amazônia, bem no meio da selva, talvez a calmaria seja nociva. Quando aquela bicharada se esconde e se cala vem perigo por aí. Mas coração sereno e manso é descanso para a alma, atordoada com tanta emoção. Nesta hora é que ela se aflora refletida na escuridão, feito leito de rio oferecido para a lua se mostrar e encantar.
Tudo precisa se acalmar e mergulhar na mansidão, no escuro. Do inverno brota a primavera, um bem necessário. Afinal quem não sabe ser triste não sente alegria. Me canso de ver gente que não sente, só entende. Pessoas que trocam um lapso sequer de sossego por um retoque no batom, uma gula, luxúria, brigas, paixões... Tudo é bem vindo a aquele que não consegue encarar a própria alma, que não suporta esperar, que não sabe sentir-se no silêncio e então se cala.

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